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- O PAPO

- 11 de set. de 2020
- 3 min de leitura
Queda na média móvel de mortes por Covid no Brasil deve ser vista com cautela; veja análise de especialistas
Especialistas dizem que a tendência é a transmissão continuar, mas num limiar mais baixo. Para eles, não é possível falar em imunidade de rebanho e existe o risco de uma 2ª onda. População deve evitar aglomeração até o fim da pandemia.

O Brasil registrou na quarta-feira (9) o terceiro dia de queda consecutiva na média móvel de mortes por Covid-19. Todas as datas com queda no índice foram registradas no mês de setembro. Antes disso, não houve outros períodos de queda na média móvel.
Semana até 5 de setembro: média de 819 mortes por dia, redução de 17%
Semana até 7 de setembro: média de 784 mortes por dia, redução de 17%
Semana até 8 de setembro: média de 691 mortes por dia, redução de 26%
Semana até 9 de setembro: média de 679 mortes por dia, redução de 25%
A notícia é boa, mas, segundo especialistas ouvidos pelo G1, o dado deve ser interpretado com cautela, uma vez que os registros são recentes para já afirmar que esta é a tendência da pandemia no Brasil.
Para explicar os principais pontos do tema, os especialistas respondem, abaixo, às seguintes perguntas:
A queda na média móvel representa a realidade de todo o país?
O que explica a queda na média móvel das mortes?
A queda significa que o Brasil atingiu o pico da pandemia?
A queda significa que o Brasil atingiu a imunidade de rebanho?
A queda na média móvel das mortes será constante daqui em diante?
Poderemos ter um segundo aumento de mortes tão alto quanto registrado no pico?
Já é possível relaxar medidas de isolamento?
Veja abaixo as respostas:
1. A queda na média móvel representa a realidade de todo o país?
O epidemiologista Paulo Lotufo afirma que é preciso olhar com ponderação para a média móvel nacional, uma vez que o Brasil tem diferentes epidemias acontecendo ao mesmo tempo.
"O coronavírus não atingiu todo o Brasil ao mesmo tempo, chegou primeiro em São Paulo capital e foi se espalhando. É complicado falar da pandemia no Brasil como um todo, pois ela tem uma realidade própria em cada lugar, tem dinâmicas muito distintas", afirma Lotufo.
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Por isso, o epidemiologista prefere analisar a curva epidêmica de cada estado separadamente.
"Muito do que vemos na média móvel nacional é resultado da situação da pandemia em São Paulo e Minas Gerais, os estados mais populosos. O interior paulista conseguiu controlar as mortes neste período, por exemplo, isso refletiu na média nacional. Por outro lado, os óbitos continuam crescendo em alguns estados", diz.
De fato, quando o Brasil apresentou a segunda queda de mortes na média móvel, em 7 de setembro, 17 estados – dos 26 estados mais o Distrito Federal – apresentaram redução de fato (SC, ES, RJ, DF, GO, MT, AC, AP, RO, AL, BA, MA, PB, PE, PI, RN e SE), enquanto que dois ainda apresentavam aumento das mortes (AM e RR), e o restante estava em estabilidade.
O infectologista Alberto Chebabo, da Sociedade Brasileira de Infectologia, ressalta ainda que as duas últimas médias móveis passaram por um feriado seguido de final de semana, o que pode ter interferido no registro dos óbitos.
"Segunda-feira tivemos 315 mortes notificadas, é um número muito baixo quando comparado com dias anteriores, que já chegou a mais de mil. Provavelmente esse número teve impacto do feriado [7 de setembro]. Geralmente as notificações caem nesses períodos", diz Chebabo.
2. O que explica as quedas de morte na média móvel nacional?
O epidemiologista Pedro Hallal, reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), explica que, ao contrário de países da Europa que conseguiram conter a disseminação do vírus por meio de políticas de saúde pública rigorosas, a queda das mortes na média móvel brasileira é resultado do que os cientistas chamam de "história natural da doença".
"Fizemos pouca política de isolamento, falhamos com a saúde pública, não conseguimos conter o vírus, deixamos seguir a 'história natural da doença', em que um vírus diminui a sua disseminação naturalmente quando atinge o seu próprio limite. É o que está acontecendo neste momento no Brasil", afirma o epidemiologista.
Hallal lembra que, em abril, o Ministério da Saúde previu que a curva epidemiológica começaria a baixar em junho ou julho, mas como as medidas para conter a Covid-19 não foram tomadas no tempo certo, o pico da pandemia se transformou em um platô, matando por semanas mais de mil pessoas por dia.
"O vírus está nos mostrando que a sua história natural foi bem mais longa que isso. Nossa curva durou de março a setembro pelo fato de que o Brasil descumpriu sistematicamente as recomendações da ciência, como lockdown e distanciamento. Pagamos o preço, tivemos a curva epidêmica mais longa do mundo", diz Hallal.



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